O fim da escala 6×1 saiu da pauta política e entrou de vez no planejamento operacional das
empresas brasileiras. Na quarta-feira, 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou
em dois turnos a PEC que proíbe a escala de seis dias de trabalho por um de folga e reduz a
jornada constitucional de 44 para 40 horas semanais. A votação foi expressa: 472 a 22 no
primeiro turno e 461 a 19 no segundo. Assim, o texto segue agora para o Senado Federal, e a
expectativa do governo é que seja votado antes das eleições de outubro.
Para o empresário, especialmente os que atuam em setores intensivos em mão de obra,
como varejo, alimentação, logística, saúde e serviços, a mensagem é simples: o tempo de
aguardar acabou. A transição começa 60 dias após a promulgação da emenda e, por isso,
quem não se preparar vai pagar mais caro por isso.
O que você vai aprender nesse conteúdo:
ToggleO que a lei determina, em linguagem de negócios
A PEC aprovada pela Câmara não traz apenas uma proibição. Na prática, ela reorganiza o
modelo de trabalho do país em duas etapas com prazos definidos.
Primeira etapa: 60 dias após a promulgação
Dois dias de descanso por semana passam a ser obrigatórios, sendo um deles
preferencialmente aos domingos. Além disso, a jornada semanal cai de 44 para 42 horas.
Em outras palavras, a escala 6×1 estará extinta em menos de dois meses após a sanção.
Segunda etapa: 14 meses após a promulgação
A jornada cai para 40 horas semanais. Além disso, todos os salários nominais ficam
protegidos: a PEC veda qualquer redução de remuneração, inclusive de pisos salariais de
categoria.
Quem fica de fora
Há exceções relevantes. Profissionais com diploma de ensino superior que recebam acima de
2,5 vezes o teto do INSS (cerca de R$ 21 mil) não estão sob a proteção automática. Portanto, da
mesma forma, trabalhadores terceirizados em contratos com o setor público seguem regras
diferenciadas. Por fim, a PEC ainda permite que leis ordinárias regulamentem regimes
específicos, desde que respeitados os limites mínimos.
Quem vai sentir mais
Segundo o Ministério do Trabalho, cerca de 14,8 milhões de vínculos celetistas operam hoje
na escala 6×1, o que representa 33,2% do total de empregados formais do país. O Ipea, por
sua vez, estima que até 16 milhões de trabalhadores poderiam ser diretamente beneficiados
pela mudança. Esses números, portanto, dão dimensão do desafio de adaptação que está por
vir.
Os setores mais expostos são os que operam sete dias por semana, com funcionamento
contínuo e alta dependência de mão de obra. A Confederação Nacional do Comércio (CNC)
levantou que 93% dos trabalhadores no varejo e 92% no atacado estão hoje na escala 6×1. Na
construção civil e na agricultura, os percentuais chegam a 91% e 92%, respectivamente.
Dessa forma, para esses segmentos, a mudança não é incremental. É estrutural.
Porém, no setor de logística, o impacto também preocupa. A Federação das Empresas de Transporte
de Carga do estado de Santa Catarina (Fetrancesc) projeta que a redução de 220 para 200
horas mensais tornará a folha de pagamento do setor 18% mais cara. Além disso, por se tratar
de operações contínuas, a reorganização de turnos exigirá mais contratações, mais gestão e
mais custo.
O debate sobre os números
Nenhuma questão no fim da escala 6×1 divide mais os especialistas do que o impacto
financeiro real para as empresas. Por isso, é importante que o empresário entenda que os
números que circulam variam bastante dependendo de quem os produziu.
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) estima que, sem redução salarial, o custo efetivo
da hora de trabalho subirá 22%, com encargo total de R$ 267,2 bilhões anuais sobre as
empresas. Segundo a entidade, isso causaria uma inflação média de 6,2% ao consumidor,
chegando a 5,7% especificamente em alimentos e itens básicos.
A CNC, por sua vez, calcula que os custos com folha salarial cresceriam 21% para o setor do
comércio, com possibilidade de repasse de até 13% aos preços. Além disso, a entidade
projeta perdas de R$ 122,4 bilhões para o segmento e a necessidade de criar 980 mil postos
de trabalho para compensar a redução de jornada.
O Ipea, contudo, chega a conclusões bem diferentes. Para o instituto, o aumento do custo do
trabalho não passaria dos 10% nos setores mais impactados. Na média geral, a alta seria de
7,8% de custo extra do trabalho. No entanto, quando levado em conta o custo operacional total
das empresas, o impacto cai consideravelmente: para o comércio varejista, que concentra 6,9
milhões de vínculos, então o aumento total de gastos seria de apenas 1,04%. No atacado, com 1,9
milhão de trabalhadores, o impacto ficaria em 0,41%.
Para o Ipea, os efeitos do fim da escala 6×1 seriam comparáveis aos de um reajuste do salário
mínimo, algo que o mercado já absorveu historicamente sem colapso. Ademais, a hora
liberada do trabalhador também pode gerar mais consumo e dinamismo na economia, o que
compensaria parte do impacto nas margens.
Quem está certo?
Provavelmente, os dois. Empresas de serviços com baixa margem e alta
rotatividade de pessoal sentirão mais. Já as grandes redes com capacidade de reorganização
de turnos, uso de banco de horas e tecnologia sentirão menos. Em suma, o impacto depende
do porte, do setor e da gestão.
O custo oculto que ninguém está calculando
O debate público se concentrou nos custos diretos da mudança — folha, contratação e
repasse de preços. No entanto, há um lado da conta que o empresário precisa considerar com
a mesma seriedade: o custo do modelo atual.
Dados do governo federal mostram que, em 2024, o Brasil registrou cerca de 500 mil
afastamentos por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho, entre ansiedade, depressão
e burnout. Além disso, parte significativa desses afastamentos está concentrada exatamente
nos setores onde a escala 6×1 é mais prevalente.
Absenteísmo, turnover, indenizações trabalhistas e perda de engajamento também pesam no
caixa. Afinal, uma equipe cronicamente esgotada comete mais erros, produz menos por hora e
troca de emprego com mais frequência. Dessa forma, o fim da escala 6×1 pode reduzir esses
custos ocultos que raramente aparecem nos orçamentos, mas aparecem nos resultados.
O que já aprendemos com quem passou por isso antes
A resistência do empresariado à redução de jornada não é novidade no mundo. Em 1988,
quando o Brasil reduziu a jornada de 48 para 44 horas semanais, os mesmos argumentos
circularam: custo, inflação e desemprego. Contudo, um estudo publicado em 2002 por
economistas da PUC-Rio e da USP não identificou efeitos negativos no nível de emprego
decorrentes dessa mudança.
A experiência internacional também oferece referências importantes. A França adota a
semana de 35 horas desde os anos 2000. Da mesma forma, a Alemanha e a Holanda operam
na prática com médias abaixo de 40 horas. O Chile, por sua vez, aprovará redução gradual de
45 para 40 horas até 2029. Em nenhum desses países o mercado de trabalho desmoronou. A
adaptação, em todos os casos, veio da combinação entre reorganização de processos,
ganhos de produtividade e, em alguns setores, aumento de contratações.
Entretanto, os especialistas em recursos humanos apontam que a comparação com a Europa
exige cautela, dado que nesses países a carga tributária sobre a folha é menor e a
produtividade por hora é maior. No Brasil, os encargos sobre a folha já representam entre 37%
e 42% adicionais sobre o salário bruto em regimes como Lucro Real e Lucro Presumido. Por
isso, o setor empresarial pede, em paralelo, discussões sobre desoneração da folha como
contrapartida para a mudança.
O que o empresário deve fazer nos próximos meses
O texto da PEC ainda precisa de aprovação no Senado, onde precisará de 49 votos em dois
turnos. No entanto, dado o placar expressivo na Câmara e a pressão política do governo, a
maioria dos analistas acredita que a aprovação é questão de tempo — e não de possibilidade.
Portanto, preparar-se agora é mais barato do que correr depois da promulgação.
Algumas frentes de ação práticas:
Mapeamento de impacto imediato. Identifique quantos funcionários estão hoje em
escala 6×1 e em quais áreas. Em seguida, calcule a diferença de custo de folha
considerando a transição para 42 horas em 60 dias e para 40 horas em 14 meses. Esse
número vai aparecer no orçamento de qualquer forma, então melhor descobri-lo agora.
Revisão de escalas e turnos. Para operações contínuas, a reorganização de horários
será o maior desafio operacional. Em muitos casos, será preciso redistribuir turnos,
ampliar equipes ou renegociar convenções coletivas para encontrar formatos que
atendam à lei sem comprometer a operação.
Avaliação de automação. A redução de jornada, aliada ao encarecimento da mão de
obra, torna o investimento em automação mais atrativo. Dessa forma, processos que hoje
são executados manualmente podem ser candidatos a soluções tecnológicas que
aumentem a produtividade por hora trabalhada.
Diálogo com sindicatos e convenções coletivas. A PEC permite que leis ordinárias
regulamentem regimes diferenciados. Além disso, acordos e convenções coletivas podem
encontrar soluções setoriais para a transição. Assim, empresas que anteciparem esse
diálogo terão mais poder de negociação do que as que esperarem.
Monitoramento da tramitação no Senado. O prazo de transição começa a contar a partir
da promulgação. Por isso, quem acompanhar de perto a votação no Senado terá mais
tempo de planejamento. A expectativa é que o texto seja analisado ainda em 2026.
O que o Senado vai decidir
Com a chegada da PEC ao Senado, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP),
vai ditar o ritmo. Até agora, ele não se manifestou publicamente sobre o tema. No entanto, de
acordo com apurações da imprensa, o senador deverá permitir o andamento natural da
matéria, respeitando o rito regimental.
O texto pode seguir pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e por outras comissões
permanentes, como a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Uma alternativa mais rápida
seria a criação de uma comissão especial — modelo usado pela Câmara. O empresariado, por
sua vez, já está em campo: um grupo liderado pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, se reuniu
com Alcolumbre antes mesmo da aprovação na Câmara para tentar frear o avanço da
proposta.
O resultado dessa negociação ainda está aberto. Contudo, com uma pesquisa do Datafolha
indicando que 64% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1 e com o governo
apostando na pauta como bandeira eleitoral, o cenário político favorece a aprovação.
A conta que toda empresa vai ter que fazer
O fim da escala 6×1 é, objetivamente, uma mudança de custo para a maioria das empresas
que operam com funcionamento contínuo. A magnitude desse custo depende do setor, do
porte e da capacidade de adaptação de cada negócio. No entanto, a pergunta relevante não é
apenas ‘quanto vai custar’, mas sim ‘como transformar essa mudança em vantagem
competitiva’.
Empresas que usarem o período de transição para reorganizar processos, melhorar a gestão
de turnos e investir em produtividade podem sair mais eficientes do outro lado. Por outro lado,
empresas que esperarem passivamente vão absorver o impacto de uma vez só, sem
planejamento e com mais pressão sobre as margens.
A experiência internacional mostra que economias se adaptam. Dessa forma, as empresas
que saem na frente em momentos de mudança estrutural são as que encaram o movimento
como uma oportunidade de modernização e não como uma ameaça a ser contornada.






