A precificação de procedimentos precisa mudar antes de 2027, e a conta não é só trocar um imposto por outro. O ISS, o PIS e a Cofins saem de cena. Entram o IBS e a CBS, com regras próprias de base, de crédito e de destaque na nota. Por isso, a clínica que mantém a tabela atual corre o risco de absorver parte do imposto sem perceber. Quem recalcula com calma protege a margem e ainda negocia melhor com convênios e empresas.
Neste guia, você vê como o imposto novo entra no preço da consulta e do procedimento. Também entende o papel do crédito, do regime tributário e do tipo de cliente. Por fim, confere três exemplos numéricos e um passo a passo para refazer a tabela.
O que você vai aprender nesse conteúdo:
TogglePrecificação de procedimentos: o que já muda em 2026
Em 2026, a CBS roda em fase de teste, com alíquota de 0,9%, e o IBS começa com 0,1%. Esses valores têm caráter informativo. Segundo a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS, quem cumpre as obrigações acessórias não paga nada adicional neste ano.
Mesmo assim, 2026 serve de ensaio. A nota fiscal passa a trazer campos novos, e os sistemas de emissão precisam de ajuste. Empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real preenchem IBS e CBS na NF-e desde 3 de agosto de 2026. Já o Simples Nacional e o MEI entram na obrigação em 4 de janeiro de 2027. Esses prazos vêm de notas técnicas que ainda recebem ajustes, então confirme as datas com o seu sistema de emissão.
IBS e CBS no lugar de ICMS, ISS, PIS e Cofins
A reforma troca cinco tributos por dois. A CBS, federal, ocupa o lugar de PIS e Cofins. O IBS, dividido entre estados e municípios, ocupa o lugar de ICMS e ISS. A Lei Complementar nº 214/2025 fixou as regras gerais dos dois tributos.
A transição segue em etapas. Em 2027, a CBS passa a valer plenamente, e PIS e Cofins saem de cena. Entre 2029 e 2032, o ICMS e o ISS caem aos poucos, enquanto o IBS sobe. Em 2033, o novo sistema opera sozinho. Veja o contexto completo no nosso guia da Reforma Tributária em 2026.
Precificação de procedimentos: por que a tabela atual não serve mais
Em geral, a tabela de preços de uma clínica costuma nascer de três ingredientes: custo, margem e imposto. Hoje, o imposto aparece como um percentual sobre o faturamento, normalmente pequeno. Com a reforma, a alíquota efetiva sobe e o imposto passa a ser destacado na nota.
Segundo o Portal CPA, em coluna de outubro de 2025, sem ajuste há risco de profissionais absorverem parte da carga tributária sem perceber. A mesma coluna afirma que apenas parametrizar o sistema não basta. Portanto, a revisão precisa tocar contratos, custos e política de preço.
Quanto custa hoje e quanto pode custar
O Portal CPA cita a carga atual de serviços no Lucro Presumido, entre 5,65% e 8,65%. No Lucro Real, a faixa vai de 11,65% a 14,65%, com créditos limitados. Para a saúde, a Fenacon informa a redução de 60% nas alíquotas de IBS e CBS para quem está fora do Simples. Isso dá cerca de 10,6%.
Esses números ajudam a dimensionar o salto. Contudo, são estimativas, porque a alíquota de referência ainda depende de definição. A Fenacon escreveu o texto em julho de 2024, quando a regulamentação seguia em discussão no Senado. Por isso, use 10,6% como cenário de trabalho, e não como valor final.
Tributação do serviço de saúde: redução de 60%
A redução de 60% vale para serviços de saúde humana, segundo as fontes consultadas. Na Medicina S/A, o consultor fala em 30 tipos de serviços. Já a Agilize diz que, com alíquota padrão de 25%, a efetiva seria de 10%.
O desconto reduz o salto, mas não elimina. Um serviço que hoje paga cerca de 6,65% pode passar a pagar cerca de 10,6%. Em contrapartida, a clínica passa a ter direito a crédito sobre despesas, o que atenua a diferença. Assim, o efeito final depende da estrutura de custos.
Precificação de procedimentos e o cálculo “por fora”
O IBS e a CBS entram no preço “por fora”. Isso significa que o imposto se soma ao valor do serviço, em vez de estar dentro dele. No exemplo do Portal CPA, com alíquota efetiva de 19,6%, o serviço de R$ 1.000 passa a custar R$ 1.116,46. Desse total, R$ 933,50 são honorários e R$ 182,96 são imposto.
Na prática, o paciente pessoa física enxerga um preço final. Por isso, a clínica decide se mostra o imposto separado ou se ajusta a tabela para que o total feche no valor desejado. Em qualquer caso, a conta interna precisa separar honorário e imposto. Sem essa separação, a margem real fica escondida.
Exemplo prático: a consulta de R$ 300 no Lucro Presumido
Considere uma consulta de R$ 300 em clínica do Lucro Presumido. Hoje, o ISS de 3% e o PIS e a Cofins de 3,65% somam 6,65%, ou cerca de R$ 20. A receita líquida é de cerca de R$ 280.
Suponha uma alíquota efetiva de 10,6%, calculada “por fora” sobre esses R$ 280. O imposto seria de cerca de R$ 29,69, e o preço final subiria para cerca de R$ 309,74, um aumento de 3,3%. Os números são hipotéticos e ignoram os créditos de despesas.
Crédito de despesas: o novo componente da conta
A reforma permite aproveitar crédito sobre despesas operacionais. O Portal CPA cita locação, internet, limpeza e serviços terceirizados. Além disso, para a clínica, entram ainda os insumos e os serviços de fornecedores no regime regular.
Segundo o mesmo texto, o efeito financeiro desses créditos fica menor diante do aumento geral das alíquotas. Mesmo assim, ele existe. Portanto, mapeie cada despesa e peça nota com imposto destacado. Sem nota correta, o crédito não aparece e a margem encolhe.
Precificação de procedimentos e o custo dos insumos
Procedimentos usam insumos, descartáveis e dispositivos. Parte desses itens tem redução de 60% ou até alíquota zero, conforme o comprador e a lista da lei. Por isso, o custo de cada procedimento pode mudar de forma diferente.
Em seguida, abra a ficha técnica de cada procedimento. Separe o que tem imposto embutido e o que não tem. Assim, você enxerga o crédito possível por procedimento. Além disso, renegocie com fornecedores que não emitem nota com imposto destacado, porque eles quebram a cadeia de crédito.
Exemplo prático: o procedimento de R$ 1.200 com convênio fixo
Imagine um procedimento pago a R$ 1.200 por um convênio que não aceita reajuste imediato. Hoje, com 6,65% de carga, a receita líquida é de cerca de R$ 1.120. Se o preço contratual passa a incluir o imposto de 10,6%, a base cai para cerca de R$ 1.085.
A clínica perde cerca de R$ 35 por procedimento. Suponha R$ 300 de insumos com cerca de R$ 29 de imposto embutido como crédito. A perda líquida cai para cerca de R$ 6 por procedimento. Com 400 procedimentos por mês, isso soma cerca de R$ 2.500 de margem a menos. O exemplo é hipotético e supõe que o custo do insumo sem imposto fique igual.
Precificação de procedimentos e o regime tributário da clínica
O regime muda a conta. Segundo a Agilize, o Simples Nacional paga pelo DAS e não gera crédito. O Lucro Presumido, por sua vez, tende a ser o mais beneficiado, porque tem a redução de 60% e créditos amplos.
O Lucro Real é mais complexo e serve a hospitais e clínicas de alto faturamento. Portanto, antes de recalcular a tabela, confirme o regime vigente e o regime mais vantajoso para 2027. Uma mudança de regime pode alterar a tabela inteira.
Simples Nacional e a janela do híbrido
O Simples ganhou uma opção híbrida, na qual a empresa recolhe IBS e CBS fora do DAS e passa a gerar crédito. A janela de opção para 2027 foi de 1º a 30 de setembro de 2026. Se você perdeu o prazo, converse com o contador sobre as próximas janelas.
O híbrido compensa quando a clínica atende muitas empresas e convênios que usam crédito. Já a clínica que atende só pacientes pessoa física ganha menos. Como o paciente não usa crédito, o benefício vem só do lado das compras. Portanto, simule os dois cenários antes de decidir.
Precificação de procedimentos: paciente, convênio e empresa
Na prática, cada cliente reage de uma forma. O paciente pessoa física olha o preço final. O convênio compara tabela e reajuste. A empresa contratante, como em saúde ocupacional, olha o custo líquido depois do crédito.
Por isso, a clínica pode ter mais de uma tabela. Para o particular, vale o preço total. Para a empresa do regime regular, vale o preço com imposto destacado e crédito claro. Essa separação evita desconto desnecessário e mantém a competitividade em cada canal.
Exemplo prático: a empresa cliente e o fornecedor do Simples
Por exemplo, imagine uma empresa do regime regular que paga R$ 10.000 por mês a uma clínica de saúde ocupacional. Se a clínica é do Simples tradicional, a empresa não recupera crédito. Se a clínica estivesse no regime regular, com 10,6%, a empresa recuperaria cerca de R$ 958 por mês.
A diferença é um argumento de negociação. A Agilize observa que médicos do Simples podem perder competitividade junto a empresas do regime normal. Contudo, o ganho depende do perfil da carteira. O exemplo é hipotético e simplifica a regra de crédito.
Convênios e planos de saúde: como negociar o reajuste
Por outro lado, convênios operam com tabelas e contratos de longo prazo. A reforma muda o imposto do prestador, mas o contrato nem sempre acompanha. Segundo a Medicina S/A, a carga dos planos também deve subir, e isso influencia a conversa com a rede credenciada.
Por isso, leve números para a mesa. Mostre o imposto atual, o imposto estimado e o efeito na margem por procedimento. Em seguida, proponha uma cláusula de reajuste ligada à mudança de alíquota. Assim, a clínica evita absorver sozinha uma carga que veio de fora.
Precificação de procedimentos: margem de contribuição por item
Depois de achar o preço novo, calcule a margem de contribuição de cada procedimento. Ela é o preço líquido do imposto, menos os custos variáveis. Esse número mostra quais itens sustentam a clínica e quais dão pouco retorno.
Com a reforma, a margem de alguns procedimentos pode cair mais do que a de outros. Isso acontece quando o item usa muito insumo sem crédito ou atende muito convênio sem reajuste. Por isso, ordene a tabela pela margem. Em seguida, decida onde vale reajustar, onde vale renegociar e onde vale reduzir a oferta.
Precificação de procedimentos e o split payment
O split payment começa em 2027. Nele, o imposto sai do pagamento no momento da transação e segue direto ao governo. Em um primeiro momento, o mecanismo tende a ser facultativo e apenas entre empresas. A regra para o consumidor final ainda depende de regulamentação.
Para a clínica, o efeito é no caixa. Hoje, o imposto fica no caixa até o vencimento e funciona como capital de giro. Com o split, esse alívio some. Portanto, a tabela precisa considerar o prazo de recebimento, principalmente no convênio que paga em 30 ou 60 dias.
Passo a passo para recalcular a tabela
O primeiro passo é levantar custos fixos e variáveis por procedimento. Em seguida, separe o imposto atual do preço e descubra a receita líquida de cada item. Depois disso, aplique o cenário de 10,6% de forma “por fora” e veja o novo total.
O terceiro passo é somar os créditos possíveis de cada procedimento. Na sequência, compare o novo preço com a tabela de convênios e de concorrentes. Por fim, defina quem absorve a diferença: o paciente, o convênio ou a margem. Registre a decisão para revisar a cada trimestre.
Precificação de procedimentos e a comunicação com o paciente
Portanto, o reajuste precisa de uma explicação simples. O paciente aceita melhor uma mudança quando entende o motivo. Por isso, prepare uma frase curta para a recepção. Ela deve dizer que a mudança vem da reforma e que a clínica mantém a qualidade.
Além disso, evite reajustes em várias etapas pequenas, que irritam mais do que um ajuste único. Avise com antecedência e mantenha o valor de pacotes já contratados. Assim, a clínica preserva a confiança e reduz o cancelamento.
Erros comuns na precificação de procedimentos
O primeiro erro é apenas somar 10,6% ao preço atual, sem tirar o imposto de hoje. O segundo é ignorar o crédito das despesas. Em seguida, muitas clínicas esquecem que o convênio não reajusta sozinho.
Por outro lado, há quem repasse tudo ao paciente e perca volume. Além disso, alguns esperam 2027 para fazer a conta. Por fim, outros tratam todos os procedimentos da mesma forma. Portanto, peça ao contador uma simulação por procedimento e por tipo de cliente.
Como preparar a clínica em quatro passos
Como reforça Luiz Rainato, diretor da R2 Saúde Contábil, a clínica que recalcula a tabela antes da regra final protege a margem. Primeiro, confirme o regime e a alíquota de trabalho. Em seguida, calcule a receita líquida de cada procedimento.
Depois disso, simule o preço novo com e sem crédito. Na sequência, abra a conversa com convênios e empresas. Por fim, atualize a tabela, o sistema e a equipe de atendimento antes de 2027.
Perguntas frequentes sobre precificação de procedimentos
Preciso aumentar o preço da consulta em 2027?
Depende do regime e do cliente. No cenário de trabalho, a consulta de uma clínica do Lucro Presumido sobe cerca de 3%. O crédito de despesas pode reduzir a necessidade de reajuste.
Qual alíquota devo usar na simulação?
Use cerca de 10,6% como cenário, que vem da redução de 60% sobre a referência de 26,5%. A alíquota definitiva ainda depende de regulamentação.
O Simples Nacional gera crédito para o cliente?
No Simples tradicional, não. A opção híbrida permite crédito, mas traz mais obrigações. Simule os dois cenários.
Como reajustar o valor pago por convênios?
Leve ao convênio o cálculo do efeito na margem e proponha uma cláusula de reajuste ligada à alíquota. A negociação costuma ser mais fácil com números.
O imposto aparece separado na nota?
Sim, a nota passa a trazer campos de IBS e CBS. Para o paciente pessoa física, a clínica decide se mostra um preço final ou o imposto em destaque.
Sua clínica está pronta para a Reforma Tributária?
Quem atende vive a rotina da agenda cheia. Por isso, a revisão de preço costuma ficar para depois. Sem preparo, porém, a margem encolhe, o convênio não acompanha e o crédito se perde.
A R2 Saúde Contábil acompanha a regulamentação da Reforma Tributária para clínicas, consultórios e profissionais da saúde. Assim, ajudamos o setor a simular a carga, recalcular a tabela e organizar a transição.
Fale com a R2 Saúde Contábil e entenda como a precificação de procedimentos vai afetar o seu negócio.
Luiz Rainato





